“Ressurreição (1872) é a história de um casamento bom para todos, que não se realiza devido aos ciúmes infundados do noivo. Nos três romances seguintes, trata-se da desigualdade social. As heroínas são moças nascidas abaixo de seu merecimento, e tocará às famílias elevá-las, reparando o “equívoco” da natureza. A questão é tratada aprovativamente, no limite da grosseria, em A mão e a luva (1874); na perspectiva da suscetibilidade em Helena (1876), e com muito desencanto em Iaiá Garcia (1878). A despeito desta evolução o denominador comum dos quatro livros é a afirmação enfática da conformidade social, moral e familiar, que orienta a reflexão sobre os destinos individuais. Uma reflexão que não amplia nem generaliza as contradições em que assenta, mas ao contrário, as considera enquanto caso particular, que pede remédio também particular.O que falta a Félix, o noivo indeciso de Ressurreição, é a energia necessária para constituir família e tornar-se membro prestante da sociedade. A análise – essa força dissolvente – não vem aplicada ao instituto do casamento, mas às intermitências da vontade da personagem, que são lamentadas. Já Guiomar, em A mão e a luva, adapta-se com sagacidade louvável aos sentimentos de uma baronesa, a quem preza grandemente e que acabaria por adotar. São os cálculos e a maleabilidade da moça a razão de ser do romance. Em Helena, a heroína, depois de grande esforço para se fazer aceita, prefere a morte à idéia de ser mal vista pela família de cuja bondade depende. E mesmo a orgulhosa Estela, uma agregada cuja, “taça de gratidão estava cheia”, não prolonga o seu sentimento da independência em restrições à autoridade e as instituições que a diminuem . Seu mérito está no decoro que soube guardar em condições adversas. Noutras palavras, a família, de preferência abastada, é a intocável depositária da ordem e do sentido da vida.”
Schwarz, Roberto. Ao vencedor as batatas. São Paulo: Duas cidades; Editora 34, 2000, pp. 88-89.
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